O Acre contabiliza 7.658 hectares devastados pelo fogo até o dia 16 de agosto, conforme o último levantamento do Projeto Acre Queimadas, vinculado à Universidade Federal do Acre (Ufac). Esse total representa um salto de aproximadamente 169% em relação ao que foi verificado no fim de julho, quando a área queimada somava 2.850 hectares. O aumento expressivo em apenas 16 dias demonstra a intensificação do período seco no estado.
Mesmo com a escalada recente, o acumulado de 2026 ainda se mostra menos severo que o dos dois anos anteriores. Os números atuais são 15% inferiores aos registrados no mesmo intervalo de 2025 e 78% menores que os de 2024, o que revela uma situação comparativamente mais amena, embora o cenário demande atenção.
Em termos práticos, mais de 4,8 mil hectares foram incorporados ao total estadual desde o fim de julho, evidenciando que a temporada de incêndios ganhou força justamente quando a estiagem atinge seu estágio mais crítico. O avanço do fogo tem sido célere e preocupante para as autoridades ambientais.
A distribuição geográfica das queimadas passou por mudanças significativas no período. Cruzeiro do Sul assumiu a liderança no ranking municipal, superando Feijó, que ocupava a primeira posição anteriormente. Na sequência aparecem Rio Branco, Rodrigues Alves e Tarauacá, que juntos representam 54% de toda a área queimada no estado.
O mapa divulgado no boletim aponta uma concentração relevante de focos na porção oeste do Acre, sobretudo na região do Vale do Juruá. Além de Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves, outros municípios dessa área também apresentam ocorrências espalhadas por seus territórios, reforçando o padrão de interiorização do problema.
Embora a área total tenha crescido consideravelmente, a maioria das ocorrências ainda se caracteriza por pequenas dimensões. De acordo com os responsáveis pelo projeto, 53% das áreas queimadas correspondem a queimadas de até cinco hectares, o que indica uma pulverização de focos ao invés de grandes incêndios isolados.

Outro dado relevante do levantamento mostra que cerca de 5% das áreas atingidas coincidem com alertas de desmatamento emitidos pelo sistema DETER do INPE. Essa sobreposição é relativamente baixa, mas não descarta a possibilidade de que outras queimadas tenham ocorrido em locais que já passaram por supressão vegetal anteriormente.
O cenário climático segue como um fator de atenção. As projeções utilizadas pelo Projeto Acre Queimadas indicam a continuidade do fenômeno El Niño em intensidade de forte a muito forte, com precipitação abaixo da média e temperaturas elevadas entre agosto e outubro. Os modelos do INMET, IRI Climate Forecast e Censipam convergem para condições mais quentes e secas em toda a região Norte.
Existe ainda a possibilidade de que a estiagem se estenda até outubro ou novembro, o que prolongaria o período de risco e facilitaria a propagação das chamas. A série histórica do projeto destaca os anos de 2005, 2020, 2021, 2022 e 2024 como os mais críticos, servindo de alerta para o que pode ocorrer caso as condições persistam.
Os primeiros impactos já são perceptíveis na qualidade do ar. Dados da Rede de Qualidade do Ar do Acre revelam que os municípios de Assis Brasil e Bujari começaram a registrar, nas primeiras semanas de agosto, médias diárias de partículas finas (PM2,5) superiores ao limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que é de 15 µg/m³ por dia.
Os gráficos do boletim mostram uma elevação gradual na concentração de material particulado ao longo dos meses, com picos mais frequentes em junho, julho e início de agosto. Esse aumento está diretamente associado à fumaça proveniente das queimadas e pode trazer riscos à saúde da população.
Diante do quadro, os pesquisadores reforçam que os números de 2026 ainda são melhores que os dos anos anteriores, mas a velocidade com que a área queimada cresceu em agosto evidencia a necessidade de redobrar os cuidados com o uso do fogo. A prevenção segue como principal ferramenta para evitar tragédias ambientais e sanitárias.
O boletim é elaborado pelo Projeto Acre Queimadas, sob coordenação da pesquisadora Sonaira Silva, da Ufac, com base em imagens dos satélites Landsat 8 OLI e Sentinel-2, que identificam as cicatrizes deixadas pelo fogo na vegetação.
Fonte: Portal Acre




























