A Polícia Federal (PF) desmantelou uma complexa rede de espionagem russa que utilizava identidades brasileiras falsas para infiltrar agentes em diversos países. A operação, batizada de “Operação Leste”, revelou a extensão da atuação desses “fantasmas” no Brasil, expondo vulnerabilidades no sistema de registro de nascimento do país.
O Início da Descoberta
A investigação teve seu ponto de partida em abril de 2022, meses após a invasão da Ucrânia, quando a cooperação global entre serviços de inteligência se intensificou. A Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos alertou a PF sobre um oficial da inteligência militar russa, Sergey Cherkasov. Ele havia sido detido na Holanda ao tentar se infiltrar no Tribunal Penal Internacional como estagiário, usando um passaporte brasileiro em nome de Victor Muller Ferreira, com um currículo que incluía pós-graduação na Universidade Johns Hopkins.
Cherkasov foi deportado para São Paulo, onde a PF iniciou uma intensa vigilância. Dias depois, ele foi preso sob a acusação de uso de documentos fraudulentos. Durante os interrogatórios, Cherkasov manteve sua identidade brasileira, mesmo com todos os seus documentos sendo aparentemente genuínos, conforme relatado por um investigador anônimo da PF ao New York Times.
A Fraude Desmascarada
A chave para desvendar a farsa de Cherkasov foi sua certidão de nascimento. O documento indicava que Victor Muller Ferreira havia nascido no Rio de Janeiro em 1989, filho de uma brasileira já falecida que, na realidade, nunca teve filhos. O nome do pai era fictício, confirmando que o cidadão brasileiro “Victor Muller Ferreira” jamais existiu.
A partir desse caso, a PF identificou uma brecha legal no sistema de registro civil brasileiro: até 2012, certidões de nascimento podiam ser emitidas sem a Declaração de Nascido Vivo (DNV). Além disso, a descentralização dos cartórios até 2014, sem compartilhamento de informações, criou um ambiente propício para a criação de identidades falsas, que, uma vez obtidas, abriam caminho para a emissão de outros documentos como título de eleitor, certificado de reservista e passaporte.
A “Operação Leste” e os “Fantasmas”
Com base no caso Cherkasov, a Polícia Federal deflagrou a “Operação Leste” para caçar os “fantasmas” – indivíduos com certidões de nascimento legítimas, mas sem qualquer histórico de vida até a idade adulta. Essa operação minuciosa envolveu a análise de milhões de registros, combinando tecnologia e investigação manual.
Até o momento, a “Operação Leste” já identificou pelo menos nove agentes russos operando com identidades brasileiras. Dentre eles, foram descobertos um joalheiro, uma suposta modelo, um estudante universitário nos EUA, um pesquisador na Noruega e um casal em Portugal.
Desses nove, Sergey Cherkasov foi o único capturado pelas autoridades brasileiras. Condenado a cinco anos por falsificação de documentos, a Rússia solicitou sua extradição, alegando que ele seria um traficante de drogas procurado no país. No entanto, promotores brasileiros argumentam que, caso a acusação russa seja verídica, Cherkasov deveria permanecer detido no Brasil para investigações adicionais.
Fonte: Brasil Paralelo
Foto: Divulgação




























