Menu

TRANSFORMAÇÃO DO JORNALISMOJornalismo expositivo ou jornalismo de convicção?

Manchetes, contextualização e posição do contraditório podem orientar a percepção do leitor mesmo quando os fatos apresentados são verdadeiros

publicidade

A transformação do jornalismo digital mudou não apenas a velocidade das notícias, mas também a maneira como o leitor forma opinião sobre os acontecimentos.

Durante décadas, o modelo clássico de reportagem priorizou o lead: os fatos essenciais deveriam aparecer no início, seguidos de contexto, versões e informações complementares.

Hoje, em muitos casos, a manchete passou a exercer mais influência que o próprio lead.

Milhões de pessoas entram em contato com uma notícia apenas pelo título visualizado em redes sociais, aplicativos ou notificações.

Isso dá à manchete um enorme poder de interpretação.

Outro fenômeno merece atenção: o crescimento das reportagens altamente contextualizadas antes da apresentação do contraditório.

É comum uma acusação ou crítica receber diversos parágrafos de exposição, enquanto a resposta do envolvido aparece apenas ao final.

Formalmente, os dois lados foram ouvidos.

Narrativamente, porém, o leitor pode ter formado sua convicção antes mesmo de conhecer a outra versão.

É nesse ponto que surge a diferença entre jornalismo expositivo e jornalismo de convicção.

No primeiro, o profissional apresenta fatos suficientes para que o leitor construa sua própria interpretação.

Leia Também:  Consultoria milionária de Mantega sob suspeita

No segundo, a própria arquitetura do texto pode orientar o leitor para determinada conclusão.

 

Essa condução não exige mentira.

Pode ocorrer com fatos verdadeiros, selecionados e organizados de determinada maneira.

A escolha da manchete, das fontes da notícia, da ordem dos acontecimentos, do espaço concedido às versões e das palavras empregadas produz efeitos interpretativos.

Quanto mais opinativo e explicativo se torna o jornalismo, maior é o peso da visão de mundo de quem escreve e edita.

Por isso, a discussão sobre pluralidade ideológica nas redações ganha relevância adicional.

 

O problema não está apenas no que é publicado.

Pode estar também naquilo que recebe destaque, no que é relativizado e no que aparece somente depois que a narrativa principal já foi construída.

Em tempos de consumo rápido de informação, imparcialidade não depende apenas de dizer a verdade.

Depende também de permitir que o leitor encontre, dentro da mesma reportagem, elementos suficientes para construir sua própria convicção.

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade