Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra do Paraguai provocou uma crise diplomática entre Brasil e Paraguai. Durante visita a uma fábrica de equipamentos militares em São Paulo, Lula afirmou que o Paraguai havia invadido o Brasil no conflito.
Na ocasião, o presidente defendeu investimentos na indústria de defesa brasileira e relembrou o episódio histórico. Ele disse que o Paraguai invadiu Corumbá, o Uruguai e a Argentina, e que a guerra durou cinco anos.
A fala foi rapidamente repercutida no país vizinho. O Congresso paraguaio aprovou moções de repúdio, considerando que Lula distorceu e minimizou a tragédia histórica.
O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, acusou o chefe de Estado brasileiro de tratar com leviandade a maior catástrofe da história nacional.
O governo paraguaio também convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para receber uma nota oficial de protesto. Além disso, o chanceler Rubén Ramírez Lezcano informou que o presidente Santiago Peña conversou por telefone com Lula sobre o assunto.
A Guerra da Tríplice Aliança, como é conhecida na região, foi o maior conflito armado da América do Sul. O estopim foi a intervenção do Império do Brasil em uma guerra civil no Uruguai, interpretada pelo Paraguai como ameaça ao equilíbrio regional.
Em resposta, o Paraguai declarou guerra ao Brasil e posteriormente enfrentou Argentina e Uruguai, que formaram a Tríplice Aliança. O conflito terminou em 1870, deixando o Paraguai arrasado.
Segundo estimativas paraguaias, cerca de 70% da população do país morreu durante a guerra. O episódio é considerado um dos maiores traumas da identidade nacional.
Para o cientista político Gustavo Menon, a indignação vai além de uma divergência factual. Ele afirma que a fala de Lula tocou em uma ferida histórica profunda da memória paraguaia.
Menon explica que a visão do conflito no Paraguai é de uma catástrofe nacional, com perdas humanas massivas e devastação econômica. Dessa forma, a declaração de Lula foi vista como uma distorção da história e uma minimização do sofrimento.
Já o historiador Victor Missiato, especialista em América Latina, considera que o presidente brasileiro misturou fatos com interpretações incompletas. Ele afirma que houve, de fato, invasão paraguaia, mas também interesses do Brasil e da Argentina em conter o avanço do Paraguai na Bacia do Prata.
Missiato ressalta que a intervenção brasileira no Uruguai alterou o equilíbrio regional e influenciou a decisão de Solano López de iniciar as ofensivas. Para ele, a crise deve ficar restrita ao campo diplomático.
O historiador acredita que a dependência econômica entre os países, os acordos do Mercosul e de Itaipu tornam improváveis consequências econômicas ou geopolíticas relevantes. O incidente, portanto, deve ser superado sem maiores estragos nas relações bilaterais.
Fonte: Metrópoles



























