Moraes apresentou uma defesa dura. Chamou de “farsa” a investigação conduzida por André Mendonça, atribuiu-lhe motivação político-eleitoral e sustenta que milhares de documentos analisados não revelam qualquer ato ilícito de sua parte.
É seu direito defender-se.
O problema começa quando a própria estrutura encarregada de decidir sobre a investigação passa a produzir uma movimentação incomum em torno das provas.
Cristiano Zanin e Gilmar Mendes exigiram acesso integral ao conteúdo do celular de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal acabou entregando cópias aos gabinetes dos dois e também ao próprio Moraes. O argumento oficial é legítimo: nenhum ministro deveria votar sem conhecer a totalidade do material.
Mas existe outra questão que não pode ser ignorada.
Por que tamanha mobilização para vasculhar o aparelho justamente nas horas anteriores ao julgamento?
Não há prova de que Zanin ou Gilmar tenham buscado o material com a finalidade de construir uma defesa para Moraes. Afirmar isso como fato seria irresponsável.
Mas a aparência institucional é péssima.
A Corte que decidirá se um de seus membros deve ser investigado recebeu, às vésperas do julgamento, acesso a um gigantesco banco de dados ainda relacionado a outras investigações. E o próprio potencial investigado recebeu esse conteúdo.
Mais inquietante é observar que Zanin havia adotado posição mais restritiva quanto ao acesso integral a provas em processos ligados a Jair Bolsonaro. Agora, diante de Moraes, defende a necessidade de conhecimento amplo do conjunto probatório. Essa mudança de critério merece explicação pública.
O relatório da PF não apresenta uma condenação pronta.
Há mensagens enviadas por Vorcaro a um contato atribuído a Moraes, pedidos de ajuda, referências a encontros e documentos relacionados ao contrato milionário entre o Master e o escritório da mulher do ministro. As respostas atribuídas a Moraes não foram recuperadas, e os documentos não demonstram, sozinhos, que os pedidos do banqueiro tenham sido atendidos.
É exatamente por isso que investigar é necessário.
Investigar não significa condenar.
Arquivar antes de investigar, porém, pode significar impedir que se descubra a verdade.
O perigo desta sessão é o STF transformar uma análise jurídica em uma operação de salvamento corporativo.
Se há uma explicação inocente para os encontros, mensagens, contratos e pedidos de Vorcaro, uma investigação independente poderá demonstrá-la.
Se houver irregularidades, a sociedade tem direito de conhecê-las.
O que não pode acontecer é a Suprema Corte estabelecer um princípio segundo o qual a dúvida justifica investigação para o cidadão comum, mas exige proteção quando alcança um ministro.
Alexandre de Moraes tornou-se talvez o integrante mais controverso do Supremo brasileiro.
Agora seus colegas não decidirão apenas sobre ele.
Decidirão se o STF consegue investigar o próprio STF.
Se a resposta for construída pela busca da verdade, a Corte poderá sair fortalecida.
Se parecer construída para salvar um dos seus, o julgamento de Moraes poderá transformar-se no julgamento da credibilidade do próprio Supremo.





























