O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou, durante entrevista ao Flow Podcast na noite da última quinta-feira (1º), que questionou diretamente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a respeito do contrato firmado entre o escritório de advocacia de sua esposa e o Banco Master. Segundo Lula, a cobrança foi feita pessoalmente, embora não tenha especificado quando ocorreu o diálogo.
“Eu disse pro Alexandre de Moraes: ‘Veja, você deve uma explicação à sociedade brasileira’”, relatou o presidente, que completou sugerindo uma possível defesa que o ministro poderia ter apresentado: “Você poderia ter dito: ‘Olha, a mulher é dona do meu escritório, ela que fez o contrato, faz quinze anos que eu não advogo, é dela’. Não, cê não diz nada, cara”.
Na sequência, Lula ampliou suas cobranças para outros dois integrantes da Suprema Corte: Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. “A sociedade quer saber se a história do Toffoli é verdadeira. A sociedade quer saber se a história do Kassio Nunes é verdadeira. Todo mundo quer saber se a história da orgia são verdadeiras”, afirmou o presidente, sem detalhar a que episódios específicos se referia.
Lula prosseguiu, defendendo que os ministros têm o dever de cumprir suas funções com seriedade: “Se eles não tiverem a grandeza de caráter de cumprir com seriedade o papel dele na Suprema Corte, que é a coisa mais importante pro país, eles terão que pagar um preço por isso”. O presidente não esclareceu qual seria esse preço nem como ele seria cobrado.
A declaração surgiu como resposta a uma pergunta do apresentador Igor Coelho sobre a possibilidade de impeachment de ministros do STF, o contrato da esposa de Moraes e o pedido de vista do ministro Flávio Dino, indicado por Lula, que suspendeu o julgamento do caso no Supremo. Lula argumentou que qualquer magistrado tem o direito de pedir vista em qualquer processo.
O presidente também comentou que, com base no que tem lido na imprensa, o caso do Banco Master não se restringe ao contrato de Alexandre de Moraes, pois “tem mais gente” envolvida. Sem citar nomes, mencionou pessoas que “recebeu dinheiro pra montar um instituto”, que “viajou no avião” e que “recebeu um resort”. “Então é o seguinte, pra que julgar só um? Vamos julgar todo mundo”, concluiu.
Em outro momento da entrevista, Lula saiu em defesa de Moraes, afirmando que “a bronca” contra o ministro não decorre do caso Banco Master, mas sim “por conta da prisão do pai dele”, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na disputa eleitoral. Para o presidente, foi “um grande gesto da Suprema Corte não permitir que alguém que tentasse dar um golpe nesse país continuasse impune”.
Pouco antes, na mesma entrevista, Lula havia dito que os acontecimentos recentes levam a Suprema Corte a “perder credibilidade na sociedade” e criticado os ministros, afirmando que “cada um mais vedete do que o outro”. Ele contou ter conversado três vezes com o presidente do STF, Edson Fachin, e reclamou de um suposto “vazamento seletivo” da investigação: “Fachin, ou você assume esse processo e abre tudo pra imprensa, ou vai ficar na mão de um único ministro vazando de acordo com os interesses dele”.
O contrato mencionado por Lula é o do escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O caso veio a público em dezembro de 2025, quando o jornal O Globo revelou um contrato de R$ 129 milhões em três anos, conforme registrou a Gazeta do Povo. Documentos divulgados posteriormente mostram valor bruto de R$ 131,3 milhões, em 36 parcelas mensais de cerca de R$ 3,6 milhões, segundo o Poder360 e a CNN Brasil.
Os dois veículos informam que dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado, no Senado, apontam R$ 80,2 milhões pagos entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, quando o Banco Central liquidou o Master. O escritório se manifestou em nota de março de 2026, afirmando que prestou “ampla consultoria e atuação jurídica” ao banco, com 94 reuniões de trabalho e 36 pareceres, e que “nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do STF”, de acordo com o site Consultor Jurídico.
Sobre os dados da Receita, a banca respondeu à CNN Brasil que “não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente”. Já o gabinete de Moraes afirmou, em dezembro de 2025, que o escritório nunca atuou na operação de venda do Master ao BRB, segundo o Poder360. A CNN Brasil informou ainda que o ministro acessou e editou o contrato antes da assinatura e que o gabinete não havia respondido sobre esse ponto.
No que se refere a Dias Toffoli, as informações publicadas envolvem o resort Tayayá, no Paraná. O ministro admitiu ser sócio de uma empresa da família que vendeu participação no resort a um fundo ligado ao Master, e a Polícia Federal encontrou menções a ele no celular de Vorcaro, segundo o Metrópoles e a Agência Brasil. Toffoli era o relator da investigação do Master no STF e deixou o caso em fevereiro de 2026; o ministro André Mendonça assumiu.
Em nota citada pelo Metrópoles, Toffoli disse que “jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro”. Já sobre Kassio Nunes Marques, há dois episódios noticiados. Em 14 de novembro de 2025, o ministro e a esposa viajaram de Brasília a Maceió em um jato operado por empresa ligada ao grupo que administra bens de Vorcaro, caso revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo e reproduzido por Metrópoles e Gazeta do Povo.
O ministro confirmou a viagem e disse que o convite partiu da advogada Camilla Ewerton Ramos, que atua para o Master no Superior Tribunal de Justiça e assumiu o custo do voo; ela afirmou que contratou a aeronave para comemorar o aniversário com amigos. O outro episódio é um relatório do Coaf segundo o qual Master e JBS repassaram R$ 18 milhões a uma consultoria que pagou R$ 281,6 mil ao escritório de Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro, conforme a Gazeta do Povo e o Metrópoles. Kevin disse que os valores “são lícitos e decorrentes da atuação profissional”. Ao Metrópoles, Nunes Marques afirmou que “não possui relação de proximidade” com Vorcaro.
A “história da orgia” mencionada por Lula ficou sem explicação. O presidente não disse quem teria participado, onde nem quando, e não apresentou prova. Mais cedo, na mesma entrevista, ele tinha dito que no caso Master, “além do dinheiro, tem as orgias”, também sem nomes. O que as reportagens consultadas registram são festas e eventos de luxo bancados pelo banco, como descreve levantamento da Gazeta do Povo, e um processo no Tribunal de Contas da União sobre a presença de autoridades dos Três Poderes em festas na casa de Vorcaro em Trancoso (BA), noticiado pela coluna de Tácio Lorran, no Metrópoles. Nenhum desses textos liga ministro do STF a orgia.
O pedido de vista citado na entrevista é de 15 de setembro. Naquele dia, o plenário do STF discutia se dois procedimentos seriam julgados juntos: a Petição 16.662, que reúne o que a Polícia Federal levantou sobre a relação de Moraes com Vorcaro, e a Petição 16.704, sobre a conduta de André Mendonça, relator do caso Master, que mandou a PF apurar e tirou o sigilo do relatório.
Fachin proclamou 4 votos a 3 para manter os casos separados, e Dino, que defendia a união, pediu vista antes do fim. Ele tem até 90 dias para devolver o processo. Toffoli e Nunes Marques não votaram: um se declarou suspeito e o outro, impedido. As informações são de Poder360 e Migalhas.
No Senado, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) apresentou em setembro um pedido de impeachment de Moraes com a assinatura de 20 senadores, baseado no contrato do escritório e na relação com Vorcaro, segundo o Correio Braziliense. A CNN Brasil contou 55 pedidos acumulados contra o ministro. Quem decide se algum deles anda é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que no início de setembro disse, sobre os 109 pedidos contra ministros da Corte: “Eu não achei nada. Não devo achar nada”, de acordo com a Gazeta do Povo.
Até a publicação deste texto, Moraes, Toffoli, Nunes Marques e o STF não tinham se manifestado sobre as declarações de Lula. O Jornal Razão mantém o espaço aberto. O primeiro turno é no domingo (4).
Fonte: Jornal Razão




























