A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na manhã desta quinta-feira (10) em endereços ligados à empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora Go Up, responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A ação também atingiu a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo. Karina é figura central em investigações que apuram supostas irregularidades em contratos públicos e possível uso de recursos para financiar produções cinematográficas.
Além da produtora, Karina da Gama é dona do Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização social que mantém um contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi gratuito em áreas periféricas da capital. A investigação apura suspeitas de desvio de recursos, direcionamento de licitação e superfaturamento.
Antes de se envolver com a família Bolsonaro, Karina atuava como promotora de literatura cristã e participou da campanha do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que também é produtor executivo do filme sobre o ex-presidente. Em apenas dois anos, a ONG fundada por ela deixou de ser uma pequena entidade que realizava eventos literários evangélicos com apoio de emendas de vereadores para se tornar detentora de um contrato de dezenas de milhões de reais.
Nascida na Brasilândia, periferia da Zona Norte de São Paulo, Karina tem 46 anos e morava em uma casa simples, que é alvo de processo de usucapião na própria Prefeitura. Evangélica, ela prestava serviços de audiovisual e promoção de eventos para igrejas da região.
O ICB, criado em 1990, começou a firmar contratos com a prefeitura em 2018. Um dos primeiros eventos foi o “Encontro Literário IDE”, de escritores gospel, realizado entre 27 e 30 de setembro daquele ano, com contrato de R$ 2,5 milhões assinado com a Secretaria Municipal da Cultura. O encontro contou com emendas dos vereadores Souza Santos (Republicanos), Milton Leite (União Brasil), Noemi Nonato (Republicanos) e Atílio Francisco (Republicanos), que destinaram, respectivamente, R$ 1,33 milhão, R$ 500 mil, R$ 270 mil e R$ 400 mil. O evento ocorreu no Auditório Elis Regina, no Anhembi.
Nos anos seguintes, os repasses diminuíram. Segundo o Portal da Transparência da Prefeitura, em 2023 a ONG recebeu R$ 500 mil. Porém, em junho de 2024, às vésperas da eleição municipal que reelegeu Ricardo Nunes (MDB), o ICB foi a única entidade a responder ao chamamento público da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia para instalar 5 mil pontos de wi-fi nas periferias.
A gestão Nunes fechou contrato de R$ 108 milhões com a organização, que até então não tinha experiência na área. Após vencer o certame como candidata única, a ONG terceirizou os serviços e subcontratou pequenas empresas fornecedoras de internet em favelas e áreas periféricas.
De acordo com o Portal da Transparência, no primeiro ano do contrato, em 2024, o ICB recebeu pelo menos R$ 40 milhões. O acordo previa a instalação dos 5 mil pontos em até 12 meses, mas a meta não foi cumprida e o contrato sofreu três aditivos que estenderam o prazo até 2029. O valor anual passou de R$ 108 milhões para R$ 157 milhões, segundo a Polícia Civil, que cumpriu mandados em endereços de Karina, da ONG e da Secretaria de Inovação nesta segunda-feira (1º).
Até o momento, apenas 3.200 pontos foram instalados. A promessa é de que a meta seja atingida até o fim deste ano.
A promotora Marina Pedersolli aponta indícios de “possível direcionamento do chamamento público, ausência de capacidade técnica da entidade contratada, suposto sobrepreço nos valores pagos pela Administração Municipal, antecipação de repasses públicos e pagamentos por serviços supostamente não executados”.
Ela também menciona suspeitas de pulverização dos recursos por meio de subcontratações e possível uso de valores do contrato para financiar a produção cinematográfica ligada a Karina.
A ONG e a produtora do filme “Dark Horse” (Azarão, em português) funcionam no mesmo endereço na Avenida Paulista, no centro de São Paulo. O local também abriga a empresa GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural Ltda, de propriedade de Karina.
Em 2022, a GO7 recebeu R$ 54 mil para a campanha do deputado Mario Frias, conforme prestação de contas na Justiça Eleitoral. Frias é roteirista e produtor-executivo do filme sobre Bolsonaro. Em 2023, logo após tomar posse, ele destinou R$ 2,5 milhões em emendas parlamentares para o ICB aplicar em projetos sociais no interior paulista.
O prefeito Ricardo Nunes afirmou que o chamamento público ficou aberto por 30 dias. “Não é comum. Não houve nenhum pedido de impugnação, nenhum questionamento, nenhuma outra entidade quis participar. Fizemos pesquisa de preço e este processo ficou mais barato que os anteriores”, declarou. Ele justificou a escolha da ONG pela necessidade de mapear comunidades carentes. “Era mapear as comunidades, verificar a falta de sinal, a vulnerabilidade e instalar os pontos de wi-fi. Não é só instalar”, disse.
A Secretaria de Inovação e Tecnologia informou que colabora com as investigações. Em nota, afirmou ser equivocada a informação de que a Prefeitura repassou R$ 157 milhões ao ICB. Segundo a pasta, no primeiro ano da parceria (junho de 2024 a maio de 2025) foram repassados R$ 69,12 milhões, referentes a 3.200 pontos em funcionamento, ao custo mensal de R$ 1.800 por ponto.
A gestão municipal também negou que os aditivos tenham prorrogado o prazo para instalação dos 5 mil pontos. Afirmou que os valores por ponto foram reduzidos para R$ 1.280,80 e que, de junho a dezembro de 2025, serão pagos R$ 24,59 milhões pela manutenção de 3.200 pontos. De janeiro a dezembro de 2026, o valor será de R$ 49,18 milhões. A prefeitura destacou que o custo é inferior às propostas de empresas privadas em 2022, que variaram de R$ 2.026,26 a R$ 5.092,14.
A administração justificou a parceria com organização social pela natureza do projeto, que exige experiência social em territórios periféricos. Antes, houve chamamento para empresas privadas, sem interessados. O termo com o ICB permite subcontratação de serviços de telecomunicações.
A prefeitura reafirmou que a seleção seguiu a Lei Federal nº 13.019/2014 e que o ICB atendeu a todos os requisitos. Os apontamentos do Tribunal de Contas do Município em 2024 foram sanados e a Corte concordou com a continuidade do processo.
Procurada, Karina da Gama disse em 20 de maio que desconhece as notas mencionadas, mas não controla se um fornecedor anula uma nota. “As notas fiscais do instituto glosadas, fui eu mesma que apontei para a prefeitura, e estão sendo resolvidas na prestação de contas”, afirmou. Ela confirmou que o ICB e as três empresas funcionam no mesmo endereço para manter o controle. Nesta segunda-feira (1º), a reportagem tentou contato com a ONG, mas não obteve retorno.
A investigação segue em sigilo e novos desdobramentos são esperados nos próximos dias.
Fonte: G1






























