A baiana Nilza Carla Leal, de 45 anos, transformou a dor em inovação. Mãe de João Pedro, um jovem de 20 anos com paralisia cerebral, ela criou um absorvente dérmico voltado para pacientes que passam por gastrostomia. O dispositivo, batizado de JO+, já tem patente e promete melhorar a qualidade de vida de quem depende de sonda para se alimentar.
João Pedro nasceu em 2004, após um parto demorado que, segundo a mãe, provocou lesões cerebrais. “Ele tremia muito e tinha dificuldade para mamar. No mesmo dia, foi levado para a UTI neonatal”, relembra Nilza. O diagnóstico de paralisia cerebral veio cinco meses depois.
Apesar do susto inicial, a mãe encarou a situação com serenidade. “Eu só queria ter um filho. Não criei expectativas. Se veio com desafios, tudo bem”, afirma. Com o tempo, João Pedro precisou de uma gastrostomia, procedimento que cria um canal direto no estômago para alimentação.
A gastrostomia, no entanto, exige cuidados constantes. O local da incisão pode sofrer ferimentos por vazamento de líquidos ou atrito da sonda. Foi justamente por causa dessas lesões que Nilza foi acusada de maus-tratos. “Aquilo me motivou a buscar conhecimento e uma solução”, conta.
Na época, ela trabalhava em recursos humanos e cursava administração. Deixou tudo para se dedicar ao filho. Durante as longas internações, aproveitava cada minuto para estudar. “Eu levava livros e apostilas para o hospital. Foi assim que me tornei técnica de enfermagem, bióloga e hoje curso mestrado”, orgulha-se.
O JO+ começou a ser desenvolvido em 2016. A ideia era substituir gazes e adesivos comuns por um material mais eficiente. “O absorvente cobre a pele, evita o atrito e absorve o suco gástrico. Ele muda de cor conforme absorve, indicando o momento certo da troca”, explica a inventora.
Foram anos de protótipos e testes, com a participação do próprio João Pedro e de outros três pacientes. O nome JO+ homenageia o filho e também simboliza a união de todos que podem ser ajudados.
Para a fabricação, Nilza escolheu o poliuretano, um polímero flexível importado da China. Cada unidade custa R$ 4,90, e um paciente pode usar até seis por dia, dependendo da necessidade. A meta agora é produzir em escala.
“O grande entrave é a falta de financiamento. Os editais exigem faturamento anual de R$ 100 mil, e a gente não vendeu nada ainda. Precisamos pagar patente e CNPJ com recursos próprios”, desabafa a pesquisadora.
Ela sonha em construir uma fábrica própria para produzir a matéria-prima e baratear ainda mais o dispositivo. Enquanto isso, conta com a ajuda da filha mais nova, Maria Júlia, de 14 anos, que também cuida do irmão.
“Tenho orgulho de ter enfrentado o preconceito e de ter voltado a estudar. Minha filha me apoia, e João Pedro é minha inspiração”, finaliza Nilza, que não desiste de ver o JO+ chegar ao mercado.
Fonte: G1




























