A liderança mundial das Testemunhas de Jeová anunciou na última sexta-feira (18) uma mudança histórica em sua doutrina sobre sangue. A partir de agora, os membros da congregação poderão decidir individualmente se doam ou recebem quatro componentes específicos do sangue: hemácias, leucócitos, plasma e plaquetas. A informação foi divulgada pelo porta-voz internacional da organização, Paul Gillies.
A nova diretriz representa uma flexibilização significativa em relação ao entendimento que vigorava há mais de oito décadas. Desde 1945, quando a Sociedade Torre de Vigia, sede mundial do grupo, estabeleceu a proibição oficial, as Testemunhas de Jeová restringiam o uso, a transfusão e a doação de sangue. A mudança, no entanto, não altera a vedação à transfusão de sangue total.
Segundo Gillies, a decisão sobre doar ou aceitar esses componentes passa a ser uma questão de consciência pessoal. “Cada Testemunha deve decidir se vai ou não doar sangue com o propósito claramente expresso de fornecer componentes ou frações para uso por outra pessoa”, afirmou o porta-voz.
Essa não é a primeira atualização recente. Em março deste ano, a organização já havia autorizado procedimentos que envolvem o próprio sangue do paciente, como coleta, armazenamento e posterior utilização no mesmo indivíduo. Agora, a flexibilização se estende à doação para terceiros, desde que limitada aos quatro componentes citados.
A medida reflete uma tentativa de equilibrar os ensinamentos bíblicos com as possibilidades da medicina moderna. De acordo com Paul Gillies, as Testemunhas de Jeová continuam considerando o sangue sagrado e entendem que a Bíblia o trata como um todo, sem especificar o uso de suas partes. “O sangue continua sendo sagrado para as Testemunhas de Jeová, que seguem vendo a vida e o sangue como presentes especiais de Deus”, explicou.
Diante da ausência de orientações específicas sobre componentes e frações, a organização decidiu transferir a responsabilidade da escolha para cada fiel. “As congregações não se intrometem em decisões pessoais que cabem à consciência individual”, garantiu Gillies.
O porta-voz também fez questão de agradecer aos profissionais de saúde que respeitam as preferências dos membros. “Somos gratos aos muitos médicos habilidosos e compassivos que oferecem um bom atendimento e respeitam nossos desejos pessoais quando o assunto envolve sangue”, completou.
A mudança foi recebida com expectativa por especialistas em bioética e por membros da comunidade médica, que veem na nova orientação um passo importante para facilitar procedimentos e ampliar o acesso a tratamentos. Ainda assim, a transfusão de sangue total permanece proibida, e essa restrição continua sendo um dos pontos mais conhecidos da doutrina das Testemunhas de Jeová.
Com a decisão, os fiéis ganham mais autonomia para lidar com situações médicas complexas, enquanto a organização mantém sua posição de que o sangue é sagrado. A expectativa é de que a medida reduza conflitos entre pacientes e equipes de saúde, além de permitir que as Testemunhas de Jeová contribuam com doações de componentes que podem salvar vidas.
A reportagem procurou ouvir representantes de hospitais e conselhos de medicina sobre os impactos práticos da nova orientação, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestações.
Fonte: ND+



























