O governo dos Estados Unidos anunciou na segunda-feira (1º) a proposta de uma tarifa de 25% sobre diversos produtos brasileiros, incluindo a tilápia. A medida, que pode vigorar a partir de 15 de julho, foi justificada como resposta a práticas consideradas ‘irrazoáveis’ pelo governo brasileiro, de acordo com o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR).
A tilápia, principal peixe de exportação do Brasil, não foi incluída na lista de exceções. Os EUA são o destino de cerca de 90% do volume exportado pelo país, o que torna o setor altamente dependente do mercado americano.
Apesar dessa dependência, as exportações de tilápia representam apenas 2,1% da produção total brasileira, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior. Isso significa que, mesmo que as vendas externas caiam e mais peixe fique disponível internamente, o impacto nos preços deve ser limitado.
Matheus Do Ville Liasch, analista de mercado de tilápia do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), afirma que o volume adicional no mercado interno não seria suficiente para provocar uma redução significativa nos preços. Ele ressalta que, embora as exportações venham crescendo e ganhando relevância, ainda são pequenas em comparação com o mercado doméstico.
Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira de Piscicultura (PeixeBR), acredita que pode haver alguma queda de preços em mercados regionais, mas não em escala nacional. A tarifa, segundo ele, terá efeitos localizados.
A nova tarifa é resultado de uma investigação iniciada em julho de 2025 por ordem do presidente Donald Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O documento alega que práticas do governo brasileiro são ‘irrazoáveis’ e oneram o comércio dos EUA.
Diferentemente de produtos como carne e café, dos quais os EUA dependem mais, a tilápia tem outros fornecedores relevantes. Dados do Cepea mostram que o Brasil é o quarto maior exportador de tilápia para os EUA, atrás de China, Colômbia e Indonésia.
Além disso, cerca de 80% do mercado americano de tilápia é de filé congelado, enquanto o Brasil exporta principalmente filé fresco. Essa diferença de produto também influencia a dinâmica do mercado.
Em 2025, Trump já havia imposto duas tarifas que foram posteriormente anuladas pela Suprema Corte dos EUA em fevereiro de 2026. Uma delas era a tarifa recíproca de 10%, anunciada em abril de 2025; a outra era uma sobretaxa de 40% sobre diversos itens brasileiros, comunicada em julho de 2025.
De acordo com Medeiros, essas tarifas anteriores reduziram a rentabilidade dos produtores de tilápia, que absorveram parte do custo para evitar queda nas vendas. Mesmo assim, as exportações brasileiras para os EUA caíram 43,7% no segundo semestre de 2025.
No mesmo período, o Brasil aumentou as exportações de tilápia para o Canadá. No entanto, Liasch observa que a abertura de novos mercados é uma estratégia de longo prazo e que o Brasil continuará dependente dos EUA para escoar sua produção.
Medeiros avalia que ainda é cedo para medir os impactos da nova tarifa. Será necessário verificar se concorrentes como a Colômbia também serão alvo de tarifas, o que poderia alterar a competitividade.
Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), destaca que a tilápia não está entre os produtos diretamente citados na investigação da Seção 301. Ele espera que o processo de consulta pública seja conduzido com sensibilidade e base técnica.
A lista de exceções à tarifa inclui diversos produtos brasileiros, como carnes bovinas, frutos do mar, hortaliças, frutas, café, cacau, minérios, petróleo, produtos químicos, fertilizantes, medicamentos, vacinas, componentes aeroespaciais, madeira, papel e celulose, metais preciosos e tecnologia.
Entre os itens alimentícios isentos estão cortes de carne bovina, camarões, lagostas, chuchu, mandioca, tomates, cocos, bananas, abacaxis, mangas, laranjas, cafés, chás, erva-mate, pimentas, baunilha, canela e sucos de frutas.
Na área de recursos naturais, estão excluídos minério de ferro, manganês, cobre, níquel, ouro, prata, platina, carvão, petróleo bruto e refinado, gás natural e energia elétrica.
Produtos químicos como iodo, silício, fertilizantes (ureia, potássio, fosfatos) e medicamentos como vacinas, insulina e antibióticos também ficam de fora da tarifa.
No setor aeroespacial, estão isentos motores de aeronaves, hélices, trens de pouso, assentos e equipamentos de navegação, além de madeiras nobres como teca e mogno.
Por fim, itens tecnológicos como máquinas para fabricação de semicondutores e circuitos integrados também foram excluídos.
A proposta de tarifa ainda passará por consulta pública antes de ser implementada. O setor produtivo brasileiro acompanha o desenrolar das negociações, na expectativa de que a tilápia possa ser incluída na lista de exceções.
Fonte: G1






























