Facções criminosas que surgiram em prisões brasileiras no fim do século XX se modernizaram e diversificaram seus métodos para o tráfico internacional de drogas, a atividade ilícita mais rentável do crime organizado. Com isso, os maiores grupos expandiram sua atuação para diversos continentes.
Em artigo publicado no jornal The New York Times, pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) destacam que as facções se tornaram forças políticas transnacionais, com influência especialmente na América Latina.
Um levantamento do Ministério Público de São Paulo (MPSP) indicou a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) em cerca de 30 países, com mais de 2 mil integrantes espalhados pelo mundo.
As gangues mais poderosas não estão restritas a um único território ou porto. Elas estão integradas a cadeias globais de suprimentos ilícitos, combinando comércio, finanças e tecnologia, abrangendo continentes e sendo capazes de resistir a qualquer governo.
Os pesquisadores Matias Spektor e Oto Montagner citam o PCC, o Tren de Aragua, da Venezuela, e o Cartel de Jalisco Nueva Generación, do México, como exemplos de grupos que controlam bairros, prisões e economias locais, mas não se limitam a essas fronteiras.
No artigo intitulado “Você Não Pode Fazer um Ataque de Drones em uma Cadeia Global de Drogas”, eles explicam que as facções latino-americanas operam em escala global. “Investigações de autoridades norte-americanas e europeias sugerem coordenação com sindicatos dos Bálcãs em Antuérpia; lavagem de ouro por meio de centros financeiros em Dubai; e o fornecimento de precursores químicos para drogas sintéticas de fabricantes na China”, afirmam.
A expansão alcança 28 países, segundo mapeamento do MPSP de junho de 2025. O documento aponta 2.078 membros do PCC no exterior e 40 mil no total. Os países com maior atuação são Paraguai, Venezuela, Bolívia e Uruguai.
No artigo do NYT, os pesquisadores afirmam que governos de esquerda e de direita falham em monitorar e conter as organizações criminosas. “Nenhum dos lados tem uma resposta para inimigos que são mais ricos que algumas pequenas nações e mais ágeis que muitas burocracias estatais”, escrevem.
Os professores destacam o sistema de governança dentro das facções. Mesmo atuando no mercado ilegal, esquemas paralelos com disciplina e violência são usados para manter o controle dos negócios.
Ao falar sobre o PCC, eles mencionam a operação internacional diversificada, que varia conforme o país. No Paraguai, líderes presos em São Paulo monitoram carregamentos, enviam pessoal, disciplinam membros e resolvem contas a milhares de quilômetros, deslocando-se ou entrando em conflito com gangues rivais.
Já em partes da Europa, o PCC age como parceiro de negócios. Para movimentar drogas por centros como Valência ou Roterdã, trabalha com intermediários criminosos consolidados, como a ‘Ndrangheta italiana, que domina o acesso a portos, redes de caminhões, canais financeiros e funcionários corruptos.
Os pesquisadores ressaltam que a governança se baseia em “reputações, lucros compartilhados e ameaças críveis”, para evitar que parcerias delicadas se desfaçam.
Em abril de 2025, o Wall Street Journal comparou a dimensão do PCC com a máfia italiana na Europa. “Com a dimensão dos grupos criminosos organizados italianos e a eficiência de uma corporação multinacional, o PCC ajudou a impulsionar apreensões recordes de cocaína na Europa e desencadeou violentas guerras territoriais no coração dos principais portos da Bélgica e da Holanda”, afirmou a reportagem.
Em entrevista à CNN Brasil, o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Presidente Prudente, disse que a facção está associada a diversos grupos criminosos no mundo, como máfias africanas e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Como combater? Segundo os pesquisadores da FGV, as facções internacionais adaptam sua atuação ao terreno local, podendo usar força bruta e compartilhamento de poder para assumir o controle do crime. Por isso, eles enfatizam que não é eficiente desmantelar redes criminosas destruindo centros geográficos ou matando e prendendo líderes.
“Você não pode bombardear uma cadeia de suprimentos de drogas que se estende da Califórnia a Guangdong. Enquanto a demanda global por drogas permanecer alta, os ataques militares aumentam principalmente o prêmio de risco, tornando os mercados criminosos mais lucrativos e seus operadores mais adaptáveis”, afirmam Spektor e Montagner.
Em outubro de 2025, forças de segurança do Rio de Janeiro realizaram a Megaoperação Contenção nas comunidades da Penha e do Alemão, na zona norte da cidade. Com 122 mortos e dezenas de corpos estirados em uma rua na Penha, a operação se tornou a mais letal da história do Brasil.
A CNN Brasil apurou que a Polícia Federal decidiu não participar da iniciativa por incongruência no planejamento. A PF entendeu que a operação seria arriscada demais e não atacava o problema real da atuação da facção no local.
Para os especialistas, facções como PCC e Comando Vermelho podem ficar vulneráveis por fragilidades no controle do alcance global. O combate ideal seria uma união entre cooperação internacional e táticas de inteligência.
Nenhum grupo isolado consegue governar sozinho uma cadeia de suprimentos transnacional. A cooperação transfronteiriça depende de confiança frágil, informações incompletas e medo constante de traição. Explorar essas fragilidades exige inteligência coletiva e integrada que conecte dados financeiros, registros de remessas, investigações e vigilância em diferentes jurisdições. Se as autoridades interrompessem discretamente uma remessa, isso poderia desencadear um ciclo de expurgos internos e suspeitas mútuas que destruiria a rede por dentro.
No artigo do New York Times, os pesquisadores sugerem que os Estados Unidos usem seu peso diplomático para formar uma coalizão internacional de inteligência. “Forças-tarefa dedicadas com acesso em tempo real a transporte e registros bancários, leis harmonizadas que permitam autoridades apreender ativos e fechar rotas alternativas, e tratados que autorizem a punição de intermediários além das fronteiras”.
Eles ressaltam que os EUA são um dos maiores mercados do crime organizado, onde as organizações criminosas dependem de parceiros locais para tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
Na última quinta-feira (28 de novembro), os Estados Unidos passaram a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Neste sábado (30), o governo Trump informou que a atuação das duas facções foi identificada em 12 estados norte-americanos.
“Transformar a América Latina em um teatro de guerra não enfraquecerá o crime internacional, vai fortalecê-lo. A força pode dispersar as redes criminosas no curto prazo, mas vai torná-las mais difíceis de ver, rastrear e parar”, completam os pesquisadores.
Nesta segunda-feira (1º de dezembro), a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Amanda Roberson, disse que o presidente Donald Trump quer eliminar o PCC e o CV.
Fonte: CNN Brasil




























