O historiador britânico Hugh Trevor-Roper proferiu, em meados do século XX, a polêmica afirmação de que a África não teria história. A declaração provocou reação imediata no jovem brasileiro Alberto da Costa e Silva, que se sentiu profundamente ofendido.
Na época, Costa e Silva já acumulava anos de pesquisa sobre o continente africano, e a visão do britânico lhe parecia uma redução injustificável do que se poderia entender por História. Para o estudioso, a África havia construído um passado extraordinário, com reinos poderosos, cidades prósperas e rotas comerciais vibrantes.
Guerras, migrações, crenças religiosas e produções artísticas faziam parte da realidade africana, mas a forma de reconstruí-las exigia abordagens próprias. Costa e Silva dedicou sua vida a mostrar que havia numerosas maneiras de recuperar esse legado.
Muito antes dos portugueses pisarem no continente, civilizações africanas já demonstravam organização social intricada. O Império do Mali, por exemplo, destacou-se pelo comércio de ouro, e seu governante Mansa Musa tornou-se célebre pela peregrinação a Meca, no século XIV, acompanhado de comitiva tão rica que deixou observadores impressionados.
Cidades como Kano, Ifé e Benim, na África Ocidental, ostentavam mercados, artesãos habilidosos e sistemas de poder bem estabelecidos. Outras regiões também floresceram, como Axum, Gana, os reinos cristãos da Núbia e o Grande Zimbabué, entre outros.
Essa diversidade é o foco de “A Enxada e a Lança”, livro em que Costa e Silva reconstrói a África pré-colonial. O autor definiu sua abordagem como combinando rigor acadêmico e paixão pelo tema.
O historiador não pretendia idealizar o continente. Suas análises contemplaram tanto o desenvolvimento de estruturas complexas quanto os conflitos, a escravidão e as disputas políticas. O propósito era posicionar a África dentro da História humana, sem romantizações.
Um dos grandes desafios estava nas fontes históricas, pois muitos povos africanos não deixaram arquivos escritos extensos, como ocorreu em sociedades europeias. Costa e Silva contornou essa limitação lançando mão da arqueologia, da linguística e da paleontologia.
Escavações revelaram cidades, muralhas, túmulos e objetos de cerâmica e metal. As tradições orais conservaram memórias, genealogias e narrativas por gerações. Onde havia contato com o mundo islâmico, crônicas e documentos foram preservados.
Sua pesquisa recorreu também a relatos de viajantes e a uma vasta bibliografia. O resultado foi um livro com mais de 1.600 notas e mais de mil fontes, mostrando que a reconstrução era possível, embora complexa.
Costa e Silva observou que as escolas brasileiras ensinavam com detalhes a antiguidade grega e romana, mas raramente abordavam as civilizações africanas. Ele questionava por que Axum, Songai e Ifé eram ignoradas enquanto Atenas e Roma recebiam atenção.
Para ele, conhecer a história da África não era apenas um exercício intelectual, mas uma forma de ampliar a compreensão da própria identidade brasileira. O autor afirmava que esse conhecimento enriquecia a consciência do passado coletivo.
Essa conexão ganhou força quando Alberto testemunhou os laços entre África e Brasil. Milhões de africanos foram trazidos à força durante a escravidão, mas carregavam consigo um patrimônio cultural e social de suas nações de origem.
Como diplomata, ele acompanhou a independência da Nigéria, em 1960, e serviu em países como Etiópia, Gana, Togo, Camarões, Angola, Senegal, Serra Leoa, Congo e Quênia. A vivência no continente aprofundou sua percepção das influências africanas persistentes no Brasil.
Palavras, crenças, comidas, ritmos e técnicas atravessaram o Atlântico com os africanos escravizados. Em “A Enxada e a Lança”, ele escreveu que cada um deles carregava a história de sua nação, e que esse passado também pertence aos brasileiros que os continuam.
Alberto da Costa e Silva iniciou seu interesse pela África ainda adolescente, influenciado pela leitura de “Casa-Grande & Senzala”. Diplomata, historiador, ensaísta e poeta, ele conciliou a carreira no exterior com estudos constantes.
Sua produção inclui obras como “A Manilha e o Libambo” e “Um Rio Chamado Atlântico”, tornando-o referência em africanologia no Brasil. Recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo, da Nigéria.
Costa e Silva faleceu em 2023, aos 92 anos, mas deixou um legado imenso. Em 2017, concedeu entrevista exclusiva à Brasil Paralelo para o documentário “Brasil: a Última Cruzada”, disponível gratuitamente.
Fonte: Brasil Paralelo Notícias





























