O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) realizou, na tarde da última sexta-feira, 22, na sala das sessões, uma palestra com a juíza Vanessa Cavalieri sobre o “Protocolo Eu Te Vejo”, iniciativa voltada à prevenção da violência escolar e à promoção de práticas restaurativas no ambiente educacional.
A atividade foi destinada a promotores de Justiça, juízes de Direito e servidores que atuam na área da Criança e do Adolescente. A mediação foi conduzida pelo promotor de Justiça Iverson Bueno, titular da 3ª Promotoria de Justiça Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente.

Na abertura, o promotor abordou o impacto do ataque ocorrido no Instituto São José, que resultou na morte de duas funcionárias, e destacou a necessidade de discutir novas estratégias de enfrentamento à violência envolvendo adolescentes e o ambiente digital. “Estamos enfrentando uma situação extremamente difícil para nós. Foi o primeiro evento deste tipo ocorrido no Acre e um episódio que muda a forma de pensar, de estratégias. O crime está diferente, está mudando a forma da sua execução”, afirmou.
Durante a palestra, Vanessa Cavalieri explicou que o “Protocolo Eu Te Vejo” foi desenvolvido a partir da análise de casos de violência extrema envolvendo adolescentes e ataques planejados contra escolas. Segundo ela, a proposta busca identificar situações de exclusão, sofrimento emocional e violência que antecedem esses episódios, além de estruturar estratégias de prevenção envolvendo escolas, famílias, sistema de Justiça e rede de proteção.
A magistrada afirmou que o protocolo reúne ações de Justiça Restaurativa, acompanhamento em saúde mental, fortalecimento de vínculos familiares, capacitação de profissionais e medidas voltadas à inclusão de crianças e adolescentes no ambiente escolar. Ela destacou que muitos adolescentes envolvidos em episódios de violência extrema apresentavam histórico de isolamento, dificuldade de pertencimento e ausência de escuta qualificada. “Todos eles contavam uma história de vida marcada por violência, sofrimento e violações. Eles não foram vistos enquanto eram vítimas. Só foram vistos quando se tornaram agressores”, disse.

Ao abordar o ambiente digital, Vanessa Cavalieri destacou a relação entre exclusão social, bullying e radicalização de adolescentes em redes e grupos virtuais. Segundo a magistrada, comunidades online acabam oferecendo acolhimento e senso de pertencimento a jovens em situação de vulnerabilidade emocional. “Esse menino que não tem amigos, que sofre bullying e que entra em sofrimento, vai para o lugar mais perigoso onde uma criança ou adolescente pode estar sozinho hoje em dia, que é a internet. Lá, ele encontra pertencimento e validação”, afirmou.
Durante a exposição, a juíza também chamou atenção para a necessidade de fortalecimento da convivência escolar e familiar, além da identificação precoce de sinais de sofrimento emocional. Ela ressaltou que mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, episódios recorrentes de violência e discursos de ódio precisam ser observados pela rede de proteção e pelas instituições de ensino.
Vanessa Cavalieri também defendeu maior aproximação entre escolas, famílias e sistema de Justiça no enfrentamento à violência escolar. “A violência é um sintoma. Ela é uma forma trágica de reagir a uma necessidade legítima não atendida”, destacou.
Ao final da palestra, a magistrada reforçou a necessidade de atuação integrada das instituições e das famílias na proteção de crianças e adolescentes. “Nós só conseguimos mudar esse cenário se começarmos a olhar para essa convivência que está acontecendo dentro das escolas e dentro das famílias”, afirmou.
Fotos: Jean Oliveira
Fonte: Ministério Publico – AC





























