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DEMOCRACIA RELATIVA

Quando a direita vence, a democracia entra em suspeição?

Bolívia e Peru expõem um padrão latino-americano: a contestação do resultado eleitoral quando o voto popular contraria a hegemonia da esquerda
Keiko Fujimori e Rodrigo Paz. Direita sob repressão constante. Foto: reprodução internet.

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A América Latina volta a viver um daqueles momentos em que a palavra democracia parece mudar de significado conforme o lado vencedor da eleição. Quando candidatos de esquerda vencem por margens apertadas, setores políticos e parte da imprensa tratam o resultado como expressão soberana da vontade popular. Quando o resultado favorece candidaturas de direita, o mesmo processo passa a ser descrito sob suspeita, cercado por alertas, questionamentos e narrativas de ilegitimidade.

A Bolívia é hoje o exemplo mais evidente desse fenômeno. A vitória de Rodrigo Paz encerrou quase duas décadas de domínio político do MAS, partido fundado por Evo Morales. Desde então, o novo governo enfrenta protestos, bloqueios e atos de pressão nas ruas. Segundo a Associated Press, as manifestações já duram semanas, envolvem sindicatos, camponeses e grupos indígenas, provocaram bloqueios em dezenas de pontos do país e resultaram em mortes, feridos e centenas de prisões. Parte dos protestos é alimentada por insatisfação econômica, mas também por setores ligados ao antigo campo político de Evo Morales.

A Reuters também registrou que apoiadores do ex-presidente Evo Morales ampliaram os atos em La Paz, em meio a bloqueios de estradas e escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos. O dado político central é claro: a esquerda boliviana, afastada do poder pelo voto, passou a atuar nas ruas contra um governo recém-eleito.

O Peru caminha para um cenário parecido. A eleição presidencial entre Keiko Fujimori, candidata conservadora, e Roberto Sánchez, de esquerda, tornou-se uma das disputas mais apertadas da história recente do país. Com mais de 98% dos votos apurados, Fujimori apareceu à frente por margem mínima: 50,004% contra 49,996%, segundo a Reuters. Mais de 1.600 seções eleitorais, equivalentes a cerca de 400 mil votos, ainda estavam sob revisão, e o resultado oficial poderia demorar semanas.

O próprio processo de revisão, em uma disputa tão apertada, é legítimo dentro das regras eleitorais. O problema surge quando a revisão técnica passa a ser convertida em narrativa política de suspeição permanente, especialmente quando o resultado começa a favorecer a direita. Sánchez pediu recontagem e apresentou questionamentos sobre seções eleitorais em Lima e no exterior, bases mais favoráveis a Fujimori. Observadores internacionais e autoridades eleitorais, porém, não apontaram grandes irregularidades até o momento.

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É nesse ponto que a cobertura de parte da imprensa brasileira merece reflexão. Portais de linha editorial mais à esquerda, como o Brasil 247, destacaram a disputa peruana com ênfase recorrente na biografia de Keiko Fujimori como “filha do ex-ditador Alberto Fujimori”, enquanto Roberto Sánchez aparece como “progressista” ou “candidato de esquerda”. O portal também publicou textos dando espaço à narrativa de Sánchez de que enfrentava “perseguição política” às vésperas da votação.
A escolha das palavras não é neutra. Quando um lado é apresentado pelo vínculo familiar com um regime autoritário e o outro é apresentado pelo vocabulário positivo do “progressismo”, o leitor não recebe apenas informação: recebe enquadramento. A mesma lógica aparece quando protestos contra governos de direita são frequentemente tratados como “mobilização popular”, enquanto manifestações do campo conservador costumam ser classificadas com maior rapidez como ameaça institucional, radicalismo ou ataque à democracia.

No caso boliviano, o Brasil 247 noticiou os atos contra Rodrigo Paz sob a chave da “repressão” e da “mobilização popular”, destacando prisões e feridos. O dado é jornalisticamente relevante, mas a pergunta necessária é: a mesma benevolência narrativa seria aplicada se movimentos conservadores bloqueassem estradas, paralisassem cidades e exigissem a renúncia de um presidente de esquerda recém-eleito?

O problema não está em questionar eleições apertadas. Em democracias maduras, toda disputa decidida por margem mínima deve ser auditável, transparente e respeitar os prazos legais. O problema está no duplo padrão: quando a esquerda questiona, fala-se em “defesa do voto popular”; quando a direita questiona, fala-se imediatamente em “golpismo”. Quando a esquerda protesta, fala-se em “movimentos sociais”; quando a direita protesta, fala-se em “ameaça extremista”.

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A democracia, para ser real, não pode depender do vencedor. Se o voto vale quando elege a esquerda, também precisa valer quando elege a direita. Se a rua é legítima para cobrar governos conservadores, também é legítima para cobrar governos de esquerda. Mas, em ambos os casos, há um limite: contestação política não pode se transformar em sabotagem institucional, bloqueio permanente do país ou tentativa de impedir que um governo eleito exerça seu mandato.

Bolívia e Peru expõem uma fratura mais profunda na cultura política latino-americana. Parte da esquerda ainda parece tratar a democracia como instrumento, não como princípio. Quando vence, exige reconhecimento imediato. Quando perde, convoca a resistência, relativiza o resultado e transforma a derrota eleitoral em crise de legitimidade.

A imprensa, por sua vez, deveria funcionar como barreira contra esse tipo de manipulação narrativa. Mas quando veículos abandonam a prática jornalística equilibrada e assumem a função de militância ideológica, deixam de informar e passam a conduzir emocionalmente o leitor para uma conclusão previamente definida.

O debate necessário, portanto, não é apenas sobre Bolívia ou Peru. É sobre o valor real que a América Latina atribui à alternância de poder. Democracia não é aceitar apenas o resultado conveniente. Democracia é aceitar também a derrota, fiscalizar dentro da lei e permitir que o adversário governe quando foi escolhido pelas urnas.

Sem isso, o voto deixa de ser soberano e passa a ser apenas tolerado — desde que confirme o projeto político de um único campo ideológico.

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