Um levantamento baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE indica que a maior parte dos trabalhadores brasileiros vive com rendimentos mensais de até R$ 3.242. Esse valor corresponde a dois salários mínimos, considerando o piso de R$ 1.621 em vigor no segundo trimestre de 2026.
O estudo, conduzido pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, e divulgado pelo jornal Valor Econômico, mostra que 69,1% da população ocupada no país — cerca de 103,1 milhões de pessoas, somando setores formal e informal — está nessa faixa de renda.
A distribuição salarial detalhada revela que a maior parcela, 36,9%, recebe entre um e dois salários mínimos. Outros 32,2% ganham até um piso nacional. Essa concentração na base da pirâmide evidencia a estrutura de remuneração do mercado de trabalho brasileiro.
Entre abril e junho de 2026, 33,2 milhões de trabalhadores recebiam exatamente um salário mínimo. Os dados mostram ainda que 1,8% não têm rendimento, 9,4% auferem até meio salário mínimo (R$ 810,50) e 21% ganham entre meio e um salário mínimo.
No topo da escala, 30,9% dos ocupados recebem acima de dois salários mínimos, o que equivale a 31,86 milhões de pessoas. Entretanto, a camada de altos rendimentos é bastante reduzida: apenas 1,8% ganham entre 10 e 20 salários mínimos (de R$ 16.210 a R$ 32.420), e somente 0,5% superam os 20 pisos nacionais, com renda acima de R$ 32.421.
As desigualdades regionais são acentuadas. No Nordeste, 55,9% dos ocupados recebiam até um salário mínimo no segundo trimestre de 2026, enquanto no Sul esse índice foi de 17,3%, bem abaixo da média nacional de 32,2%.
Entre os estados, o Maranhão lidera com a maior proporção de trabalhadores nessa condição: 58,5%. Em contrapartida, Santa Catarina registra a menor taxa, com apenas 11,6% de seus ocupados ganhando até um salário mínimo no período analisado.
O estudo também aponta uma elevação na proporção de trabalhadores com renda de até um salário mínimo: passou de 30% no primeiro trimestre de 2026 para 32,2% no segundo trimestre. Apesar disso, o percentual é menor que os 33,3% observados no mesmo período do ano anterior.
A renda média do trabalhador brasileiro atingiu R$ 3.738 no segundo trimestre de 2026, o equivalente a 2,3 salários mínimos. No entanto, esse indicador mascara a real distribuição de rendimentos, pois a média é influenciada tanto pelos que não têm renda quanto pela minoria de altos salários.
Na prática, a linha dos R$ 3.242 mensais separa o mercado de trabalho em dois segmentos desproporcionais, deixando a grande maioria na base. O economista Bruno Imaizumi ressalta que o salário mínimo é um referencial para todo o mercado, não apenas o formal, e que a maioria dos trabalhadores ganha no máximo dois pisos. Por isso, o reajuste anual do mínimo define as regras de renda no país.
O estudo ganha relevância diante da projeção do novo salário mínimo para 2027, que pode subir para R$ 1.741, um aumento de R$ 120 em relação ao valor atual e R$ 24 acima da estimativa anterior, divulgada em abril. A revisão, feita pelo Ministério da Fazenda, considera a atualização da inflação medida pelo INPC e o crescimento real do PIB.
O novo valor deverá ser incluído na proposta de Orçamento da União a ser enviada ao Congresso, com impacto direto em aposentadorias e benefícios sociais. A confirmação oficial dependerá do índice inflacionário fechado até novembro.
Especialistas alertam que a concentração de renda na base perpetua desigualdades e limita o potencial de consumo das famílias. Medidas de qualificação profissional e políticas de geração de empregos de melhor qualidade são apontadas como caminhos para reverter esse quadro.
A pesquisa reforça o debate sobre a eficácia das políticas públicas de transferência de renda e a necessidade de se promover um crescimento econômico mais inclusivo, que beneficie a parcela majoritária da população trabalhadora.
Os dados completos do levantamento podem ser acessados no relatório da 4intelligence, que também disponibiliza análises por setor e faixa etária. O acompanhamento contínuo da Pnad é essencial para monitorar as mudanças no mercado de trabalho e subsidiar decisões do governo e da iniciativa privada.
Fonte: NSC Total





























