O governo brasileiro considera improvável que os Estados Unidos adiem a aplicação de novas tarifas sobre as exportações do Brasil, conforme apuração da equipe de reportagem. A expectativa é que a Casa Branca confirme as taxas de 25% e 12,5% anunciadas em junho, com vigência a partir de 15 de julho.
As negociações entre os dois países seguem em andamento, mas o clima é de pessimismo no Palácio do Planalto. O representante do Departamento de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirmou recentemente que Brasil e Estados Unidos ainda estão distantes de um acordo.
O governo brasileiro aguarda uma reunião virtual com Greer até a quarta-feira (15), quando expira o prazo para a decisão norte-americana. Na ocasião, os negociadores esperam ter uma prévia do teor da decisão.
Em 1º de junho, Trump propôs tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, após uma investigação sobre desmatamento ilegal, pirataria e o sistema de pagamentos PIX. No dia seguinte, anunciou taxas adicionais de 12,5% para 60 países por falhas no combate ao trabalho forçado, incluindo o Brasil. Em ambos os casos, uma longa lista de exceções foi apresentada para evitar alta de preços no mercado americano.
A equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha com o cenário mais provável de confirmação das novas tarifas. No entanto, existe a possibilidade de o Departamento de Estado incluir um anexo modificado na decisão sobre os 25%, ampliando a lista de exceções ao tarifaço.
Os cenários foram discutidos com o presidente Lula em reunião na última sexta-feira (10) com os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (Secretaria de Assuntos Econômicos), no Palácio do Planalto. Segundo relatos, Lula reafirmou que o Brasil tem obrigação de manter a negociação até o último momento, mas seguirá na posição de que as tarifas não têm justificativa.
Até empresas americanas que dependem de importações brasileiras passaram a pressionar Washington para retirar alguns produtos do Brasil da lista de sobretaxas. O Ministério das Relações Exteriores mapeou 43 empresas e associações comerciais americanas que pedem que produtos brasileiros não sejam tarifados, sob o argumento de que não há substitutos produzidos no mercado doméstico.
Caso haja a confirmação da taxação, interlocutores do presidente Lula afirmam que a reação imediata do governo brasileiro deverá ser manifestar oficialmente indignação sobre a decisão da Casa Branca. A declaração deve seguir a mesma linha de discursos públicos do petista e das respostas oficiais assinadas pelo Ministério das Relações Exteriores à investigação dos EUA.
O governo brasileiro deve reforçar também o entendimento de classificar uma nova taxação ao país como inaceitável. As equipes técnicas e de alto nível do Brasil devem se debruçar por alguns dias sobre a decisão para examinar a lista e avaliar os próximos passos — desde avaliar se há margem para tentar seguir nas negociações até a possibilidade de acionar a Lei de Reciprocidade.
A Lei de Reciprocidade foi aprovada no Congresso Nacional em abril do ano passado e regulamentada pelo presidente Lula três meses depois, uma semana após Trump anunciar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. A lei permite que o Estado possa retaliar países ou blocos que imponham barreiras contra o Brasil.
A diplomacia brasileira acredita que o presidente Lula não deve fazer nenhum movimento neste momento para tentar negociar diretamente com Donald Trump alguma outra saída.
O governo de Lula acredita ser pouco provável o adiamento do tarifaço ao Brasil. O entendimento entre interlocutores é que a política industrial americana é feita com base em tarifas e até agora os EUA não fizeram concessões a nenhum país.
Nas reuniões com os EUA, os norte-americanos sinalizaram também que o prazo para a conclusão da investigação em 15 de julho era imexível. Caso os EUA mudem de ideia e decidam adiar, a avaliação é que a decisão deverá vir com uma justificativa — o que evitaria, inclusive, uma guerra de narrativas sobre o que levou à decisão.
O Brasil não chegou a pedir o adiamento da medida por entender que as tarifas não são justas, mas acredita que a prorrogação do prazo seria bem-vinda, ainda mais se motivada por questões econômicas ou pelo entendimento de que é necessário seguir com as negociações.
O pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, tem defendido o adiamento da medida. No início do mês, ele enviou uma manifestação ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sugerindo que a decisão sobre as taxas ficasse para depois das eleições.
Em audiência pública nos Estados Unidos na semana passada, Flávio Bolsonaro reforçou o pedido e disse que este momento é o pior possível para novas tarifas e que elas beneficiariam Lula.
Em caráter reservado, um auxiliar da diplomacia brasileira cita que a ala ideológica do governo norte-americano, formada por nomes como Marco Rubio, secretário de Estado, e Darren Beattie, assessor de Trump para políticas relacionadas ao Brasil, pode tentar interferir nas eleições do Brasil mesmo que custe a credibilidade do Departamento de Estado.
Um adiamento também pode vir como sinalização política para Flávio Bolsonaro, na busca de dar munição para o pré-candidato do PL usar em sua campanha. Seria um gesto político do presidente Donald Trump a favor do senador do PL.
Trump, que havia se aproximado de Lula, acabou fazendo acenos para Flávio Bolsonaro ao recebê-lo na Casa Branca em maio, dias depois de também receber Lula.
Há um ano, Trump publicou uma carta endereçada a Lula na qual anunciou que o governo americano iria impor uma tarifa adicional aos produtos brasileiros vendidos no mercado do país. Na carta, Trump saiu em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e usou a expressão caça às bruxas.
Na mesma carta, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados ao mercado americano. O documento marcou uma escalada nas tensões comerciais entre os dois países. Um ano depois, o governo brasileiro tenta evitar que novas tarifas propostas pelos EUA entrem em vigor. Ao longo dos últimos 12 meses, algumas das tarifas foram revistas, outras mantidas e novas cobranças foram anunciadas pelo governo americano.
Fonte: G1




























