Uma rua em Detroit, nos Estados Unidos, está testando uma tecnologia que permite carregar carros elétricos enquanto eles se movimentam sobre o asfalto. O trecho experimental, localizado na 14th Street, no distrito de Michigan Central, utiliza bobinas instaladas sob o pavimento para transferir energia por indução magnética. O sistema, desenvolvido pela empresa israelense Electreon, está em fase de testes, mas já opera em via pública.
Diferentemente dos carregadores convencionais, que exigem que o veículo pare e seja conectado a um cabo, essa infraestrutura recarrega a bateria durante o trajeto. O princípio é semelhante ao dos carregadores sem fio de celular, porém em escala muito maior. Quando um veículo equipado com receptor compatível passa sobre a área eletrificada, as bobinas no solo são ativadas, gerando um campo magnético que é captado pelo receptor do automóvel e convertido em energia para a bateria.
Nem todo carro elétrico pode se beneficiar da rua de Detroit. É necessário que o veículo esteja adaptado com um dispositivo específico da Electreon. A prefeitura local informa que as bobinas só entram em funcionamento quando um automóvel com o receptor aprovado transita sobre elas. A tecnologia funciona tanto com o carro parado quanto em movimento.
A principal promessa dessa inovação é reduzir a chamada ansiedade de autonomia, o medo de ficar sem bateria antes de encontrar um ponto de recarga. Caso a tecnologia se popularize, parte da energia consumida durante o percurso poderia ser recuperada enquanto o veículo circula, sem necessidade de paradas. Isso não eliminaria os carregadores tradicionais, mas abriria novas possibilidades para a infraestrutura elétrica.
O maior impacto potencial está em frotas urbanas, como ônibus, vans, caminhões de entrega e outros veículos que percorrem rotas repetitivas. Ao eletrificar trechos estratégicos do trajeto, seria possível reduzir significativamente as paradas longas para recarga. Em Detroit, os testes envolvem uma Ford E-Transit adaptada com o receptor da Electreon. A empresa afirma que a van circulou pelo trecho eletrificado em condições reais de trânsito, incluindo temperaturas extremas e tráfego urbano intenso.
No entanto, a velocidade de recarga ainda não se compara à dos carregadores ultrarrápidos de rodovia. O trecho americano funciona mais como um laboratório urbano do que como uma solução pronta para uso em massa. Testes em outros países, porém, mostram que a tecnologia pode evoluir. Na França, um projeto liderado pela VINCI Autoroutes, em parceria com a Electreon, a Universidade Gustave Eiffel e a Hutchinson, instalou carregamento dinâmico sem fio em um trecho de 1,5 km da rodovia A10, próximo a Paris.
Quatro veículos protótipos — um caminhão, uma van, um carro e um ônibus — passaram a circular pelo trecho em tráfego real. Segundo a VINCI, os primeiros resultados indicaram transferência de mais de 300 kW de potência instantânea e mais de 200 kW de potência média em condições ideais. A empresa acredita que, em escala maior, essa solução poderia reduzir o tamanho das baterias, especialmente em veículos pesados.
A tecnologia de recarga por indução em movimento ainda enfrenta desafios, como o custo de instalação das bobinas no asfalto e a necessidade de padronização dos receptores nos veículos. Mas os testes em Detroit e na França indicam que o conceito é viável e pode ganhar espaço no futuro. Por enquanto, a rua americana serve como vitrine para o que pode vir a ser uma infraestrutura de recarga mais integrada ao cotidiano urbano.
A Electreon, empresa responsável pela tecnologia, já realiza testes em outros países, incluindo Alemanha e Suécia. A expectativa é que, com o avanço das pesquisas, a recarga sem fio em movimento se torne uma alternativa complementar aos carregadores tradicionais, ajudando a tornar os carros elétricos mais práticos e acessíveis. No médio prazo, a tecnologia pode ser especialmente útil para frotas comerciais, que dependem de eficiência e disponibilidade constante dos veículos.
Em Detroit, a Prefeitura e a Michigan Central, parceira no projeto, monitoram os resultados dos testes para avaliar a viabilidade de expandir o sistema para outras vias. A experiência americana serve como termômetro para o interesse público e privado nesse tipo de inovação. Se os resultados forem positivos, outras cidades podem seguir o exemplo, transformando ruas e rodovias em fontes de energia para veículos elétricos.
Enquanto isso, os motoristas comuns ainda precisarão contar com carregadores convencionais. Mas a perspectiva de recuperar energia enquanto se dirige, sem desvios ou paradas, já não é mais ficção científica. A rua de Detroit mostra que a tecnologia saiu dos laboratórios e começou a dar seus primeiros passos no mundo real.
Fonte: NSC Total




























