O mercado brasileiro de proteína animal passa por uma reestruturação significativa, motivada pelas novas preferências dos consumidores ao redor do mundo. A busca por uma alimentação mais saudável, que contribua para a longevidade e ofereça alto valor nutricional, tornou-se prioridade, exigindo da cadeia produtiva itens com maior valor agregado, rastreabilidade completa e padrões rigorosos de segurança alimentar.
Esse fenômeno foi intensificado pela disseminação dos medicamentos baseados em GLP-1, popularmente chamados de ‘canetas emagrecedoras’. Conforme aponta o levantamento ‘Global State of Health Wellness 2025’, cerca de 31% dos consumidores têm uma visão favorável sobre esses tratamentos, que estão modificando os hábitos alimentares em diversas nações.
Na prática, quem utiliza esses medicamentos tende a dar preferência a dietas ricas em proteínas de alta qualidade e nutrientes, com o objetivo de preservar a massa muscular durante o emagrecimento. Esse comportamento já se reflete no consumo interno do Brasil.
O ‘Relatório Anual 2026’, divulgado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), revela que o consumo per capita de carne de frango no país atingiu 46,7 kg por habitante em 2025, superando os 45,5 kg do ano anterior. No caso da carne suína, o indicador chegou a 19,1 kg por habitante, contra 18,6 kg em 2024.
De acordo com Thaís Vieira, médica-veterinária e gerente de marketing de Monogástricos, esse contexto eleva a responsabilidade sanitária de toda a cadeia produtiva. Ela afirma que a demanda qualificada exige que o Brasil, líder global na exportação de carne de frango, ofereça não apenas volume, mas também uma garantia inegociável de segurança alimentar.
Nesse cenário, a seleção de ferramentas adequadas para a sanidade animal, como as vacinas, deixa de ser um mero detalhe técnico e se transforma em um diferencial competitivo importante, segundo a especialista.
As granjas modernas operam com alto nível tecnológico e controle em tempo real. A avicultura atual se distancia cada vez mais do modelo tradicional associado ao passado. Atualmente, as unidades de produção funcionam como ambientes altamente tecnológicos e digitalmente controlados.
Entre os principais avanços presentes nessas granjas estão o controle automatizado de temperatura, ventilação e iluminação; sistemas digitais para alimentação e monitoramento do consumo de água; protocolos rigorosos de biosseguridade; controle de acesso e processos contínuos de desinfecção; rastreabilidade completa da produção; e o uso crescente de inteligência artificial para monitorar as aves.
Esse nível de automação permite respostas rápidas diante de qualquer alteração sanitária ou comportamental, aumentando a previsibilidade da produção e reduzindo riscos ao longo da cadeia. No processamento industrial, a tecnologia também ganhou destaque. Centrais de classificação de ovos utilizam inspeção automatizada, enquanto frigoríficos operam com sistemas avançados de rastreabilidade, capazes de acompanhar cada lote desde a origem até o consumidor final.
O controle da Salmonella se consolida como um indicador de excelência sanitária. O combate a essa bactéria tornou-se uma das prioridades estratégicas da avicultura moderna. Presente naturalmente no ambiente, a Salmonella é monitorada permanentemente pela indústria e pelos órgãos reguladores, com foco na prevenção e na segurança alimentar.
O avanço tecnológico transformou a forma como o setor enfrenta esse desafio sanitário. O modelo corretivo deu lugar a estratégias preventivas integradas, envolvendo biosseguridade, manejo, nutrição e vacinação. Thaís Vieira destaca que a avicultura brasileira vive um momento de maturidade sanitária, com granjas modernas operando sob protocolos rigorosos, alta tecnologia e integração de dados, permitindo antecipar riscos e entregar alimentos cada vez mais seguros.
No Brasil, o Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA), coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, estabelece diretrizes rigorosas para monitoramento e mitigação dos riscos associados à Salmonella. Os sorovares de maior relevância para a saúde pública, como Salmonella Enteritidis e Salmonella Typhimurium, são acompanhados em todas as etapas da cadeia produtiva.
Segundo Letícia Dal Berto, gerente técnica da Elanco para Aves, a integração entre diferentes estratégias sanitárias é o que sustenta os resultados atuais da produção nacional. Ela explica que hoje se fala de um sistema integrado, em que biosseguridade, nutrição, manejo e vacinação trabalham juntos, sustentando o controle eficiente da Salmonella na produção moderna.
O Brasil fortalece sua liderança global nas exportações de carne de frango. O avanço tecnológico e sanitário reforçou a competitividade do país no mercado internacional. Atualmente, o Brasil responde por aproximadamente 36% do comércio mundial de carne de frango, consolidando-se como o maior exportador global do produto.
De acordo com dados do United States Department of Agriculture (USDA), o país exportou mais de 5,3 milhões de toneladas em 2025, estabelecendo um recorde histórico e superando, sozinho, o volume combinado de grandes concorrentes internacionais, como Estados Unidos e China. Esse desempenho reflete a capacidade da cadeia brasileira em atender mercados altamente exigentes em termos de segurança alimentar, qualidade sanitária e rastreabilidade.
A vacinação ganha protagonismo na produção animal moderna. Com o aumento das exigências globais por alimentos seguros, a vacinação passou a ocupar posição estratégica dentro da avicultura industrial. De acordo com Letícia Dal Berto, as vacinas desempenham papel fundamental na redução da colonização bacteriana e na diminuição da disseminação de patógenos nas granjas.
Ao atuar diretamente na redução da colonização das aves e da disseminação da bactéria, as vacinas tornam-se um dos pilares da segurança alimentar contemporânea, além de contribuírem para práticas mais sustentáveis e alinhadas à redução do uso de antibióticos, ressalta a especialista.
Para especialistas do setor, a segurança alimentar deixou de ser apenas uma exigência regulatória e passou a representar um atributo de valor percebido pelo consumidor final. A combinação entre digitalização das granjas, inteligência artificial, rastreabilidade e desenvolvimento de vacinas mais eficazes aponta para uma nova fase da produção animal brasileira, marcada por maior precisão sanitária, sustentabilidade e confiança do mercado.
Thaís Vieira conclui que a evolução da avicultura mostra que a segurança dos alimentos não depende de uma única solução, mas de um sistema integrado que combina tecnologia, ciência e boas práticas.
Fonte: Portal do Agronegócio






















