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RELACIONAMENTOS VIRTUAISAplicativos de namoro: 23% dos brasileiros já tiveram encontro com desconhecido

Pesquisa revela que quase um quarto dos usuários de smartphone no país usou apps para marcar encontros, com destaque para jovens.

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Não existem estatísticas oficiais sobre a quantidade de brasileiros cadastrados em plataformas de relacionamento, já que as companhias do setor costumam manter esses dados sob sigilo. Entretanto, um levantamento conduzido pela Mobile Time em parceria com a Opinion Box no ano passado indicou que aproximadamente 23% dos donos de smartphone no Brasil já saíram com alguém que conheceram por meio desses aplicativos.

Entre os usuários na faixa etária de 16 a 29 anos, o índice sobe para 29%. Já no grupo de 30 a 49 anos, o percentual é de 25%, e entre as pessoas com 50 anos ou mais, cai para 14%.

Os aplicativos mais populares no país e que concentram a maior parte dos usuários são Tinder, Bumble e Happn.

De acordo com a plataforma Happn, o Brasil ocupa a primeira posição no ranking global de usuários, com mais de 33 milhões de cadastrados, em um total que supera 180 milhões de pessoas no mundo inteiro.

“O Brasil representa o nosso maior público em âmbito mundial. A aceitação da plataforma no mercado brasileiro continua excelente e em rápida expansão: apenas nos últimos três anos, registramos um crescimento de 10 milhões de usuários no país”, afirmou Karima Ben Abdelmalek, CEO e presidente do Happn.

Já o Bumble e o Tinder informaram que não divulgam dados sobre o número de usuários cadastrados, mas destacaram que o Brasil é um de seus mercados mais relevantes e ativos globalmente.

O crescimento do interesse por aplicativos de relacionamento reflete transformações sociais. A rotina acelerada, as longas jornadas de trabalho, as mudanças nos arranjos familiares e a digitalização das relações criaram condições favoráveis para a expansão dessas plataformas.

A mecânica dos aplicativos é direta: perfis com fotos, descrições breves e algoritmos que sugerem possíveis combinações. Contudo, os impactos sociais vão muito além da tecnologia.

Atualmente, uma pessoa pode conversar ao mesmo tempo com dezenas de estranhos, conhecer alguém de outra região, cidade, estado ou até país, e marcar um encontro sem que haja qualquer vínculo anterior entre eles.

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Foi o que ocorreu com a empreendedora brasileira Raellyn Ritter Vilela, de 30 anos. Desde julho de 2025, ela mora na Ásia e, há cerca de sete meses, conheceu o namorado Oleksandr por meio de um aplicativo de relacionamento.

O rapaz é ucraniano e vive na Inglaterra. Sem a ferramenta digital, dificilmente os dois teriam se encontrado.

“Baixei o aplicativo pela primeira vez em julho, quando me mudei do Brasil. Por estar viajando por países da Ásia, achei que seria uma forma de conhecer novas pessoas. Conheci muita gente legal e tive alguns encontros até que, em novembro, dei ‘match’ e marquei um encontro com o Oleksandr, que estava de passagem pela Tailândia”, contou.

Apesar de ambos terem gostado do encontro, Vilela explicou que tinha uma viagem marcada para uma ilha no país no dia seguinte e seguiu seu roteiro.

Os dois continuaram trocando mensagens e, depois, passaram a conversar por videochamada. Cinco meses após o primeiro encontro, o casal marcou um novo. Dessa vez, passaram doze dias de férias na Espanha.

“Começamos a namorar e, após alguns meses, fiquei 20 dias na casa dele na Inglaterra, onde pudemos nos conhecer melhor. Ele já tinha planos de se mudar para a Tailândia, estava em transição de carreira, e percebemos que havia uma possibilidade concreta de morarmos juntos. Em dezembro, vamos ao Brasil para conhecer minha família e, no ano que vem, vamos morar juntos”, relatou Vilela.

No entanto, o sucesso dos aplicativos não eliminou os obstáculos. Ao lado de histórias como a de Vilela, surgiram relatos de cansaço, frustração e até queda na autoestima.

Uma pesquisa da Forbes Health (2025) mostrou que 78% dos usuários já se sentiram emocionalmente esgotados com essas plataformas, sinalizando uma procura por relações mais genuínas e menos mecanizadas.

Entre os principais motivos desse desgaste, a dificuldade de estabelecer uma conexão real lidera (40%), seguida pela decepção com outras pessoas (35%) e pela rejeição (27%).

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Também contribuem as conversas repetitivas com diferentes pessoas (24%), o hábito constante de deslizar perfis (22%) e o tempo gasto nos aplicativos (21%).

A pressão para manter uma imagem idealizada (20%) e o esforço de gerenciar múltiplos perfis (18%) aparecem como causas relevantes.

As mulheres são as mais afetadas: 80% delas relataram esgotamento, contra 74% dos homens.

“O problema não é apenas a superficialidade da escolha em si, mas também o que esse modelo faz com o comportamento depois. Quando você tem acesso ilimitado a novos perfis, qualquer coisa que dê errado numa conversa vira motivo para desistir. Não há por que investir quando a próxima opção está a um swipe de distância. Isso criou uma geração de pessoas que sabem muito bem iniciar contato, mas se comprometer muito mal. A entrada ficou fácil demais e a saída virou o padrão”, explicou Êdella Nicoletti, psicóloga especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT).

À medida que os usuários começam a se cansar e reduzir o uso desses aplicativos, as empresas tentam reagir criando novas ferramentas de conexão, como perfis mais detalhados e recursos voltados para relacionamentos de longo prazo.

Paralelamente, cresce entre alguns usuários o desejo de equilibrar experiências online e offline. Festas, eventos temáticos, grupos de interesse e atividades presenciais voltam a ganhar espaço como alternativas ou complementos às plataformas digitais.

Mesmo assim, segundo especialistas, dificilmente os aplicativos deixarão de ter um papel relevante na vida afetiva dos brasileiros.

Assim como as gerações anteriores tinham suas histórias de amor iniciadas em bailes, praças ou corredores de escola, a geração atual coleciona relatos que começam com uma notificação na tela do celular.

“O que as pessoas parecem estar buscando, cada vez mais, é o que os próprios aplicativos prometeram: conexão genuína, autenticidade e a experiência de ser visto para além de uma fotografia. Tais aspectos reforçam ainda mais a necessidade de uma educação na interação com as ferramentas digitais”, acrescentou a especialista.

Fonte: O Sul

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