O Brasil em que o crime compensa — e por que isso derruba narrativas confortáveis
Por duas décadas o economista Pery F. A. Shikida, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), ouviu criminosos dentro do sistema prisional brasileiro. Mais de 1.500 entrevistas — com perguntas longas, diretas e sem subterfúgios — produziram um retrato incômodo: para muitos infratores, a escolha pelo crime é racional, lucrativa e atraente.
Os dados mais recentes, colhidos em 2023 no entorno de São Paulo (amostra de 408 detentos), pintam um quadro que deve obrigar políticos e formuladores de políticas a reverem medidas equivocadas: a renda média mensal obtida com atividades criminosas, segundo os próprios entrevistados, foi estimada em R$ 46.333 — cerca de 12,9 vezes a renda média do trabalho legal. Em paralelo, a taxa de sucesso nas atividades ilícitas chegou a 80% na amostra paulista — um indicador de que, em muitos contextos, a punição esperada e a efetividade da repressão são percebidas como baixas.
🔎 O que a pesquisa mediu — método e robustez
Diferentemente de muitos estudos que dependem apenas de registros policiais ou estatísticas oficiais, Shikida construiu dados primários: entrevistas individuais, com média de 50 minutos cada, aplicadas dentro de penitenciárias após rigorosas autorizações éticas e administrativas. A pergunta central: o crime compensa? Para responder, a pesquisa investigou renda, motivações, trajetórias, taxa de reincidência e percepção de risco entre criminosos condenados por delitos econômicos (roubo, tráfico, estelionato, latrocínio, receptação etc.).
💸 Ganhos, motivações e “travas morais”
Os principais achados que explicam a atração pelo crime:
- Ganho médio muito superior ao legal: R$ 46.333/mês (amostra SP, 2023) — número que explica por que tanta gente opta pela atividade ilícita quando compara custos e benefícios.
- Motivações econômicas diretas: “ganho fácil”, ambição, cobiça e recrutamento por terceiros surgem como causas centrais, não apenas a “falta de oportunidade”. Em entrevistas, o argumento “eu precisava” perde força quando confrontado com a magnitude do lucro ilícito apontado pelos próprios autores do crime.
- Travas morais fragilizadas: família, escola e religião, quando frágeis, não funcionam como freios suficientes; em muitos relatos, o ambiente social e a oferta de lucros fáceis corroem essas travas.
- Alta taxa de sucesso percebida: até 80% dos entrevistados declararam que suas atividades ilícitas prosperavam — sinal de que a percepção de impunidade e a eficácia das organizações criminosas estão elevadas.
📈 O que isso significa para políticas públicas
Os resultados de Shikida derrubam parcialmente uma narrativa recorrente entre setores progressistas: a criminalidade seria — sobretudo — produto da ausência de oportunidades. A pesquisa mostra que quando o crime paga muito mais do que o trabalho legal, a simples oferta de empregos ou programas sociais, embora desejáveis, não serão suficientes para dissuadir decisões racionais de ingressar na vida criminosa.
Dessa forma, as implicações práticas são claras:
- Reforço da repressão eficaz e credível — aumentar a probabilidade de detecção e punição efetiva para recalcular o custo-benefício do crime (elementar na teoria de Gary Becker, base teórica do trabalho).
- Combate à estrutura econômica do crime — atacar o lucro ilícito: apreensão de bens, desmonte de cadeias de financiamento, interceptação de receitas e mecanismos de lavagem. Simples prisões sem atingir a logística econômica pouco alteram a equação.
- Políticas que reduzam a atratividade econômica — controles de mercado para reduzir margens (ex.: canais ilícitos, mercado paralelo), endurecimento fiscal sobre receitas suspeitas e cooperação internacional contra lavagem.
- Reforço das “travas morais” — programas familiares, escolares e de prevenção que reconstruam laços sociais, não apenas bolsas e transferências. A comunidade e a família são instrumentos essenciais de prevenção.
⚠️ Por que a narrativa “é só falta de oportunidade” é insuficiente
Ao afirmar que o crime compensa, os próprios criminosos ratificam que a escolha é instrumental: frente a uma alternativa legal que paga muito menos, o incentivo econômico para a infração cresce. Aparentemente, para muitos, o cálculo é simples: risco baixo + ganho alto = crime racional.
Desse modo, políticas públicas que concentram esforços apenas em “inclusão social” sem tocar nos ganhos ilícitos ou na efetividade punitiva atuam sobre apenas uma das variáveis do problema — e, por isso, têm eficácia limitada.
👮 O que já deu certo (e o que precisa ser feito)
Estudos correlatos e a própria teoria econômica do crime indicam caminhos que funcionam:
- Aumentar a efetividade policial e judicial (mais investigações que se transformem em condenações rapidamente);
- Políticas focadas em desmantelar organizações e cortar fluxos financeiros (cooperação internacional é essencial);
- Medidas de recuperação patrimonial e confisco legítimo de bens obtidos por meio ilícito;
- Programas de prevenção com foco nas travas morais (família, escola e religião) e reinserção real para egressos que reduzam reincidência.
📌 Enfrentar o crime exige honestidade intelectual
A contribuição de Pery Shikida é dupla: por um lado, fornece evidência empírica robusta de que o crime é, em muitos casos, uma escolha racional quando comparada à alternativa legal; por outro, obriga o debate público a sair da zona de conforto das narrativas fáceis.
Se o objetivo é reduzir a criminalidade com eficiência, o País precisa de políticas duras e realistas: diminuir o lucro do crime, aumentar o custo esperado (probabilidade de punição) e trabalhar a recomposição das travas morais comunitárias. Sem isso, programas meramente assistenciais serão, infelizmente, complementares — não centrais — na estratégia de combate ao crime.
Reportagem | Portal Acre Conservador
Reportagem produzida com ajuda de IA.

























